Caos Nova Fórmula

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ROOM SERVICE

Era quase ano dois mil, lembro-me bem dessa época, todo mundo estava apreensivo com o tal bug do milênio, que poderia ocasionar uma grande perda financeira e uma pane nos sistemas de informática com a virada de mil novecentos e noventa e nove para dois mil, um arredondamento tão assustador que até mesmo kits com lanternas e instruções de como sobreviver a esse Armagedom apocalíptico foram concedidos e seriam deixados à porta de cada hóspede na noite de réveillon assegurando-os de que tudo estaria sob controle e estávamos preparados para quaisquer eventualidades.

Trabalhávamos no maior hotel de São Paulo. O maior e o melhor. O maior e o melhor e o mais bonito e o mais tudo. Era realmente um must estar ali. Existia um certo glamour na sociedade paulistana abastada que frequentava os Jardins, e quem nunca houvesse passado por ali gente de fino trato não era, the place to be se é que você me entende. O meu departamento chamava-se room service, ou serviço de quarto, éramos mais de vinte pessoas ‘nadando’ — ‘nadar’ é um termo utilizado no setor de serviços que significa ter grande volume de pedidos, ou estar até o pescoço de comandas, ou estar na merda mesmo com todo mundo gritando e se esgueirando em todas as direções e salve-se quem puder — constantemente, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, para fornecer o que havia de melhor em termos hoteleiros na época.

Em meio a esse caos altamente organizado havia um colega de labuta que chamava minha atenção; eu nunca vou me esquecer daquele cara. Chamava-se Arthur, ele deveria ter o dobro da minha idade já com os cabelos brancos, os olhos sempre avermelhados de noites em claro que passava trabalhando sem parar, seu tique nervoso era bem engraçado: projetava a mandíbula inferior à frente, ao mesmo tempo em que desafogava a gola do uniforme branco com botões dourados e gravata borboleta preta, em um gesto coordenado muito peculiar. A cada reunião ou comunicado importante — antes de ele se pronunciar — era de praxe vermos aqueles gestos em que todos se olhavam tentando não dar aquela risadinha para quebrar o ambiente.

Começávamos alguns às seis, outros às sete da manhã. Arthur muitas vezes me disse que, quando terminássemos nosso turno por volta das quinze horas, sairia para outro trabalho extra no final da tarde e que em inúmeras ocasiões viera sem dormir — ou quase — para começar um novo turno, era comum também para ele trabalhar em seu único dia de folga estando constantemente semanas seguidas sem descanso. No bolso de Arthur, além de abridor e caneta, o colírio e as balas de hortelã eram munição indispensável para executar com destreza os pedidos de nossa exigente clientela.

Sempre ao chegar, eu o via com um grande sorriso no rosto, um bom humor indescritível para quem quase nunca tinha uma noite completa de sono e de braços abertos me recebia com brincadeiras contando suas últimas aventuras. Seu bule de chá sempre cheio — bule esse cujo conteúdo eu viria a descobrir mais tarde não se tratar de um bom café feito na hora ou de infusão de ervas aromáticas, mas de uísque doze anos — e uma xícara bem alinhada se preparando para mais uma batalha do dia a dia.

Eu o via como uma espécie de Jedi da hotelaria, pois ao mesmo tempo ele realizava seu trabalho com alta performance e rapidez, e era quase impossível para mim, por mais que eu me esforçasse, acompanhar seu ritmo. E tudo isso em grande estilo, com piadas bem colocadas nos momentos mais oportunos, sempre disposto a ajudar e acho que eu nunca o vi sequer reclamar ou falar mal de outro colega de trabalho.

***

Continua…

Finalmente tomei vergonha na cara e compilei algumas estórias autobiográficas que estavam na gaveta. Room Service é uma delas! Para quem tiver interesse em ler esta aqui embaixo o link para a pré-venda. O livro está em fase final de revisão e disponível por enquanto em ebook na Amazon!

Caos Nova Fórmula

Sinopse:

Quatro contos autobiográficos onde quase tudo é verdade, quase tudo é mentira. A nova fórmula do caos.

A primeira vez
A primeira vez é difícil mesmo de esquecer, ainda mais se for em família!

A bicicleta
Para a maioria dos meninos a primeira bicicleta é um momento muito importante, mas para ganhá-la é preciso primeiro vencer uma aposta.

Room Service
Hotelaria é uma verdadeira máquina de fazer loucos. Nunca contrarie um garçom! As consequências podem ser desastrosas.

Loucura
Apertem os cintos! São Paulo, Lisboa, Tanger, Ilhas Fiji!
Conheça Diego Loucura e descubra a origem de seu excêntrico apelido.

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